3. contextualização

Peça act without words I de Beckett, filmada por Karel Reisz (2001).

A acção na peça decorre no deserto sob uma luz ofuscante. O elenco da peça consiste num só homem que, no início da peça, é atirado para trás, para o palco. Aqui, ouve um assobio do lado direito. O assobio é uma espécie de chamada, e após alguma reflexão, segue em sua direcção. Somente para descobrir que é atirado novamente para a sua anterior posição. De seguida, o assobio vem da esquerda. E cena repete-se novamente. Não existe saída! Ele senta-se no chão e, imóvel, olha para as suas mãos. A seguir a esta breve descrição, seguem-se uma série de objectos colocados à sua disposição, com os quais o actor procura interagir. Na realidade, esses objectos são-lhe disponibilizados por uma “força externa”, invisível, que da mesma forma que os coloca, também os torna inacessíveis ao actor. A esta descrição segue-se um novo conjunto de objectos e de tentativas de interacção. Tudo para ciclicamente, levar a que o actor desista e permaneça imóvel. Situação na qual a peça termina.
Toda a peça recorda-nos uma demonstração de uma experiência científica. O actor torna-se o rato de laboratório numa jaula da qual não consegue sair (palco), o cientista (“força invisível”) que manipula e experimenta o comportamento do rato e, por último o público, que poderíamos comparar a um grupo de estudantes que observa a experiência do seu mestre cientista, mas não intervfere na acção.
A designação “Act without words v1.1” relaciona-se com a terminologia informática. Também por correr o risco de ser confundida com uma peça posterior de Beckett, “act without words II”. Poderíamos dizer que é uma versão de actualização da peça original. Neste caso, a peça é transposta simbolicamente para uma plataforma multimédia. Ao procurar reproduzir metaforicamente a peça, através do suporte multimédia procuramos estabelecer um paralelismo da acção. No nosso projecto o utilizador atravessa uma sala sem qualquer objecto, somente uma projecção na parede. Ao fazê-lo, apercebe-se que o seu movimento despoletou uma mudança sonora na sala (tal como o apito na peça de Beckett). Este ao voltar-se para a parede e, ao procurar compreender o que terá motivado essa mudança sonora, movimentar-se-á o que tornará o utilizador consciente do seu controlo. Ao compreender que possui controlo (aparente) sobre o objecto explora-o até à sua satisfação/exaustão para, no final o esquecer e abandonar (reproduzindo o mesmo abandono de procura de interacção com os objectos presente na peça).
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